29 de agosto de 2013

Que olhos grandes você tem...

Se você gosta dos contos de fada bonitinhos que te contaram quando era pequeno, pare, pare já! Não estou aqui para adocicar a infância de ninguém, muito pelo contrário. Apesar de adorar as novas versões infantis, confesso que também sou apaixonada pelas versões originais. E é uma das minhas preferidas que irei dissecar hoje: o famoso conto da Chapeuzinho Vermelho.

Como todo mundo já sabe, a história se passa entre a casa de Chapeuzinho e de sua avó, onde no meio se encontra uma floresta perigosa. A mãe da garotinha do capuz vermelho a manda levar uma cesta de guloseimas para a casa da avó, mas avisa-a para não ir pela floresta, porque por lá ronda um perigoso lobo. É claro que Chapéu desobedece. 

Em partes, a história infantil corresponde ao original. Mas pode ter certeza que nem todos os fatos são iguais.

Existem muitas e muitas versões para este conto, uma vez que foi passado de gerações à gerações pela fala. Ou seja, não existe um original escrito que comprove a data da história. Todos os contos tem pequenas alterações, mas todos continuam com aquele ar macabro, de filmes de terror.

À começar pela própria roupa da personagem principal. Recentemente tenho lido textos sobre isso e, além de tudo, foi um assunto tratado em uma das aulas de Literatura na minha escola. O fato da garota usar um gorro vermelho remete à menstruação. Isso mesmo. O vermelho, a cor da perda da inocência. Chapeuzinho Vermelho, então, seria uma personagem (e o próprio conto) feito para jovens meninas pré adolescentes? Sim.

Já foi comprovado que a maioria dos contos antigos eram criados em forma de alerta aos problemas da sociedade. No caso de Chapeuzinho Vermelho, para tomar cuidado com a perda da inocência, com o falar com estranhos, com abusos sexuais. Essas histórias eram contadas às crianças a fim de botar-lhes medo. E dava certo, né?

O central da história continua com o pedido da mãe da menina: levar doces à casa da avó, sem passar pela floresta. Em algumas versões, o perigo da floresta seria um lobo gigante. Em outras, um lobisomem e, em outras, um lobo comum. Mas todos dotados de fala, como nas fábulas. Chapeuzinho Vermelho, para encurtar o caminho, desobedece as ordens da mãe e passa pela floresta, pelo caminho mais rápido até a avó. Outro alerta aos problemas de antigamente: a desobediência

No caminho, a garota encontra-se com o lobo. (Meu professor de Literatura diz que ela deve ter algum tipo de amnésia por não reconhecer o lobo, justamente o maior perigo da floresta e do qual todos falam, porque né...). O lobo, esperto, arranca informações de Chapéu: para onde vai, fazer o quê, com quem. São essas as informações que ele usa para chegar mais cedo à casa da avó. Enquanto a pobre continua pela floresta. O alerta: não falar, jamais, com estranhos.



Sim, o lobo mata a avó. Mas não a consome inteira, como nas versões infantis. Ele a despedaça e conserva alguns pedaços de carne humana e sangue na cozinha. Nada de "vovó ficou presa no estômago". Então, se deita na cama da velha e espera sua neta. Em algumas versões,o lobo se disfarça. Em outras, não. (Mas vamos considerar que a Chapeuzinho realmente tem amnésia e que não vai reconhecer um bicho ali). Quando a menina entra e se queixa de fome, o lobo oferece carne e vinho para ela. Que são, na verdade, os pedaços do corpo de sua avó e o sangue da mesma. Admito que talvez seja uma das partes que mais me chocam na história inteira. Nunca vi algum conto tratar de canibalismo de uma forma tão fria.


Depois, vem aquela famosa cena. "Que olhos grandes você tem..." "Que nariz grande você tem..." "Que boca grande você tem...". O que poucos sabem é que, depois disso, o lobo induz Chapeuzinho à deitar-se na cama com ele, e é aí que entra o tema central do conto antigo: o abuso sexual, a inserção da sexualidade na vida de uma adolescente. A intenção era preservar a virgindade das meninas mais jovens, dando medo, com o conto. Versões diferentes contam fatos diferentes: em uma, a Chapeuzinho é literalmente vítima de estupro. Em outra, ela vai para a cama com o lobo por vontade própria. Em outra, a garota é tão inocente que mal sabe o que está fazendo, apenas sendo induzida pelo lobo. Em mais uma (acho esta pouco provável), ela faz um strip tease para o bicho. É nessa parte que podemos entender o significado do vilão. Ele representa homens mais velhos e mal intencionados, pessoas com caráter péssimo. Mas também representa a sociedade inteira entre si e seus males.

Nada de caçador, nada de final feliz. Depois do ato sexual, o lobo mata e devora a garota inteira. Ela jamais conseguiu fugir ou pedir ajuda. Essa é, pelo menos, o final da maioria das versões antigas. Para amaciá-las, uma mais nova criara o fato de que, com a desculpa de ir ao banheiro, Chapeuzinho teria conseguido fugir. O lobo a obrigara a amarrar uma corda em um dos pés, para que ele soubesse que ela ainda estava lá. Esperta, a menina, lá fora, prendera a corda em uma árvore e escapou. Mas esta versão é só uma mais leve. O conto é uma verdadeira história de terror.

Consigo até imaginar os contadores de história de antigamente, rodeados por meninas tremendo de medo, em volta de uma lareira, com cobertores. "E então, meninas, é isso o que acontece quando não se faz o que é mandado..."

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